Lagoon é um cara alto, esguio, e tem mãos enormes, com dedos musculosos – atributo que já lhe dera vantagens de milisegundos em freadas e trocas ágeis de potência. Ex-piloto da liga, é um corredor experiente e referência no cultivo de mullets, corte de cabelo que já foi febre entre os fãs de jet e ainda mantém um espaço em seus corações. Em dias como esse, de calor excessivo, o suor que se acumulava por baixo dos mullets o incomodava, e sua garrafa de água dessalinizada costumava dividir-se entre as hidratações da boca e nuca. Era tanta água na nuca que o traço era utilizado como elemento de identificação. Sabe quem é o Lagoon? É um cara alto, esguio, de mullets, que tá sempre…
– Molhando a nuca! Olha o Lagoon ali, atrás do obelisco – Pit é o primeiro a avistar o professor, na praça quase abarrotada.
O grupo estaciona seus jets em linha, num dos recuos do deck recortados exatamente para esse fim, ao lado das máquinas de mais duas equipes da academia.
– Boa tarde equipe! Só faltava vocês, estão doze minutos atrasados! Ta calor, né? – Lagoon saúda seus alunos enquanto enxarca o cabelo. – Lembrando que mesmo em treinos extra como os de hoje, temos que ser pontuais. Pilotos nunca podem perder tempo! Em nenhuma situação! Só ganhar tempo! Entendidos? – Zap recebe um cutucão de Nina, e assume a culpa pela chamada. – Hoje, além do treino de passagem, vamos treinar alguns obstáculos, pois o Jet Clube costuma colocar algumas coisas diferentes nas Escolares. Vai ser até bom que tivemos que vir pra cá hoje pois esses obstáculos são diferentes da pista de treino da academia. E como vamos usar as rampas do pessoal do freestyle, pensei que poderíamos fazer um aquecimento com eles. Não são exatamente skills de corrida, mas são ótimos treinos de habilidade e agilidade. Algum de vocês tem praticado modelo livre? Sabem alguma manobra?
– Apenas observe.
Bolha responde com uma segurança rara, pronto para surpreender seu professor. Ele monta em seu Jet que, apesar de não ser o ideal para manobras de freestyle, possui traquitanas extra por conta de suas rotinas de mergulho. Uma delas é a presença de quilhas frontais, artifício que transforma os jets em pranchas submarinas para imersões rápidas e rasas. Com essas quilhas, seus instrutores e colegas de mergulho costumavam realizar uma manobra chamada de Monkey Jump Invertido (ou simplesmente Canhão), sempre que queriam impressionar alguém – e era exatamente essa a motivação de Bolha naquele momento.
Após uma rápida marcha ré, Bolha aperta o capacete enquanto anda em círculos para gerar ondas no tamanho necessário. Completadas duas voltas, ele dá um rápido cavalo de pau e encara a onda de frente. Em seguida, ajusta a potência do motor e, após um pré-burst, acelera rapidamente, aproveitando os 250 cavalos do seu motor para uma rápida arrancada. Utilizando a onda criada como uma rampa, Bolha dá um salto bem alto, arrastando o jet para fora d’água.
– Uau! – O grupo não esperava um salto dessa altura, e admira a precisão do amigo ao atacar a rampa d’água.
Enquanto está no ar, Bolha altera a posição dos jatos, fazendo-os encarar a laguna. Com dois toques no acelerador, ajusta a angulação, embicando o jet para baixo. Ele coloca os pés na manopla auxiliar e estende o corpo para trás, praticamente deitando no banco. O jet corta a água como uma lâmina de cozinheiro, afundando por completo. Um jet desses não só é difícil de afundar como, pelo contrário, a velocidade com que ele emerge é enorme. Nesse momento o Canhão é finalizado: com os pés apoiados no guidão, Bolha salta para cima como se estivesse sendo lançado por um morteiro!
Nesse momento, não só seus amigos, como os freestylers que treinavam nas bóias ao lado uivam como uma matilha de lobos, aplaudindo a ótima execução da manobra.
– Nossa Bolha, não sabia que você sacava essa! – Pit comenta, orgulhoso pela habilidade do amigo.
– O pessoal do scuba tem me ensinado uns truques! Mas ainda não peguei tanto a manha das quilhas. – Bolha finge modéstia com um enorme sorriso no rosto.
– É Bolinho, gostei de ver! – Complementa Lagoon. – Essa é muito perigosa pra ensinar pro grupo, mas podemos treinar a parte dos saltos!
Apesar da animação de todos, Nina parecia impaciente desde que Lagoon abriu a boca para repassar o planejamento da tarde.
– Que vantagem isso vai dar pra gente nas corridas? Eu falo que o Bolha só ta perdendo tempo com essas aulas de mergulho! Não foi isso que o professor falou? Que não deveríamos perder tempo?
– Nina, confie nos seus instrutores. Não é porque vocês estão bem no ranking que não precisam mais treinar habilidades de base. Vocês ainda estão em formação, e ter uma boa base técnica desde cedo vai ser muito importante lá na frente.
– Eu concordo com a Nina, vamos correr logo! E hoje eu vou fazer ela comer espuma!
– Nem parece que vocês são da mesma equipe. – Comenta Guigo, também aluno da ARRAIA, participante da equipe Peixe Espada Samurai.
– Ta bom Zap, e porque você ganharia dessa vez? – Nina responde ignorando o comentário do colega de classe. – E eu não to falando que não acho importante treinar, só acho que temos que ter foco.
Afim de impedir que quaisquer ânimos se elevasse, Lagoon dá sequencia às atividades como planejado, sem deixar se afetar pelas poucas contestações. Após o aquecimento em estilo livre – feito a contragosto pelos dois, o treino teve foco total na passagem de revezamento, treinamento estrategicamente importante pois queimadas na troca de competidores podem custar bons segundos às equipes. Mesmo com as questões disciplinares, a equipe Senhora à Jato mostrava nos treinos porque poderia mesmo ser considerada uma das favoritas para as Provas Escolares, com desempenhos individuais superiores à média dos demais.
Ao fim do treino, os team-mates repousavam nas sombras de toldos instalados no deck central, enquanto comiam seus lanches da tarde com alimentos selecionados, pela ala de nutricionistas da ARRAIA, para a dieta de cada um. Com os motores dos jets tirando seus merecidos cochilos, ficava mais fácil de perceber o silêncio – que estava ali desde o início da tarde. O silêncio era tanto que escutava-se o barulho do mecanismo que abria, espirrava e fechava, abria, espirrava e fechava, e dele saiam esguichos de água em forma de nuvem, refrescando as cabeças de quem por ali estivesse. Pit brincava com um mirtilo dentro do pote, guiando-o pelo circuito oval do recipiente enquanto desviava de torrões de cenoura. Bolha mastigava quase que rulminando, preferindo sugar sua batida isotônica pelo canudo para evitar, de qualquer modo, abrir a boca. Entre uma mastigação, um gole e um esguicho, alguém finalmente emite um som.
– Nina, acabando aqui vamo ali na pista de drag tirar isso a limpo.
Todos os alunos que estavam por perto percebem a faísca, e aguardam a resposta da colega com seus cantos de orelha.
– Vamo agora que a pista ta vazia. Termino de comer durante a corrida mesmo, só preciso de uma mão. – Sabendo que irritaria Zap, Nina desdenha de seu amigo enquanto chacoalha uma das mãos ao lado da cabeça.
Zap praticamente rosna.
As pistas de drag são apenas espaços curtos e retilíneos, delimitados por bóias, onde dois competidores podem disputar provas de arrancada. São duas faixas de trezentos metros, separadas por uma cabine, de onde o juíz dá a largada para que ambos disparem ao mesmo tempo. Essa pista da praça é uma das mais utilizadas pelos drag-racers amadores da cidade, onde toda semana – de terça às oito da noite, depois da rádio-novela – há um encontro de pilotos montando jets que chegam a passar dos mil cavalos. Nesses encontros, é bastante comum que rusgas e disputas de ego sejam resolvidas, com malucos apostando até suas amadas embarcações em troco de recuperar a hombridade.
Um tanto de gente chega na pista, e cada piloto se coloca em seus lugares. Zap na direita, Nina na esquerda, Pit e Bolha do lado de fora, pois recusaram-se a fazer parte da birra como juízes. Os colegas que ainda estavam pela praça se aproximaram para formar uma platéia em torno das boias, junto de curiosos e algumas pessoas que só seguiram o comboio até o local. O povo de Atalanta adora uma fila, não sei explicar. De qualquer maneira, o aumento da platéia colocava ainda mais fogo na situação. Um dos colegas, um ruivindo de óculos grossos, o primeiro que abriu a boca para falar com Zap, fora recrutado para o cargo de juíz, e já estava em cima da cabine para dar a largada. O som das vozes ia aumentando, e alguns até cogitavam recolher apostas afim de angariar umas rosadinhas.
– Podem ligar os motores!
O juíz começa a cumprir seu papel, e a dupla aciona os motores, rotacionando o controle de torque para o nível máximo. Após fixarem seus pés nas alças, ajeitam a postura para ganho máximo de aerodinâmica, mantendo as pernas agachadas e a cabeça baixa. Eles bombam os motores e injetam potência extra da bateria reservatória.
– Um…
Os motores espirram água a cada giro do acelerador.
– Dois…
Os pilotos firmam seus abdomens e travam o maxilar.
– Três…
Sufocam as manoplas para garantir o máximo de grip.
– Vai!
E eles partem! Ambos os jets tem potências similares, e seguem deslizando em linha reta. A disputa é acirrada, com os bicos trocando de colocação a cada instante, em uma linha imaginária traçada à frente dos cascos. Concentrados, fazem o máximo para segurar a aceleração nas coxas e barriga, evitando perdas de aerodinâmica. O Ab Shaper dá uma micro engasgada, fazendo Nina avancar míseros centímetros a frente. Tudo acontece muito rápido, mas para eles parece uma eternidade! Zap compensa a perda no controle da aceleração, mantendo a paridade. Faltando cem metros, Nina se assusta com uma brusca aceleração de Zap, que chega com folga na linha dos trezendos metros. Após ouvir o sinal sonoro que indicava a chegada, a segunda colocada confronta Zap de imediato.
– Ah Zap, não era pra usar nitro!
– Perdeu ué, aceita. Estamos nas regras da liga.
– Ta vendo? Parece que não adianta conversar. Eu fiz esse monte de planos de treinamento e parece que ninguém liga! Então esquece esses planos, ok? Já estamos na frente mesmo, só vê se não faz nenhuma besteira que a gente se classifica.
– Eu acho! Vou fazer uma prova mais rápida que a sua de qualquer jeito!
– Vai sonhando!
Mesmo com questões mal resolvidas, o treino fora proveitoso, e a equipe estava confiante na conquista do resultado. Apesar de estarem confortáveis com o progresso do grupo, Zap e Nina parecem sempre insatisfeitos com algo. Acredito que isso só poderá ser resolvido no dia da competição, quando suas habilidades e emoções serão enfim colocados à prova. Eles são jovens né, e jovens brigam… mas precisava brigar agora? Será que é muito sério?