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  • Monkey Jump Invertido

    Lagoon é um cara alto, esguio, e tem mãos enormes, com dedos musculosos – atributo que já lhe dera vantagens de milisegundos em freadas e trocas ágeis de potência. Ex-piloto da liga, é um corredor experiente e referência no cultivo de mullets, corte de cabelo que já foi febre entre os fãs de jet e ainda mantém um espaço em seus corações. Em dias como esse, de calor excessivo, o suor que se acumulava por baixo dos mullets o incomodava, e sua garrafa de água dessalinizada costumava dividir-se entre as hidratações da boca e nuca. Era tanta água na nuca que o traço era utilizado como elemento de identificação. Sabe quem é o Lagoon? É um cara alto, esguio, de mullets, que tá sempre…

    – Molhando a nuca! Olha o Lagoon ali, atrás do obelisco – Pit é o primeiro a avistar o professor, na praça quase abarrotada.

    O grupo estaciona seus jets em linha, num dos recuos do deck recortados exatamente para esse fim, ao lado das máquinas de mais duas equipes da academia.

    – Boa tarde equipe! Só faltava vocês, estão doze minutos atrasados! Ta calor, né? – Lagoon saúda seus alunos enquanto enxarca o cabelo. – Lembrando que mesmo em treinos extra como os de hoje, temos que ser pontuais. Pilotos nunca podem perder tempo! Em nenhuma situação! Só ganhar tempo! Entendidos? – Zap recebe um cutucão de Nina, e assume a culpa pela chamada. – Hoje, além do treino de passagem, vamos treinar alguns obstáculos, pois o Jet Clube costuma colocar algumas coisas diferentes nas Escolares. Vai ser até bom que tivemos que vir pra cá hoje pois esses obstáculos são diferentes da pista de treino da academia. E como vamos usar as rampas do pessoal do freestyle, pensei que poderíamos fazer um aquecimento com eles. Não são exatamente skills de corrida, mas são ótimos treinos de habilidade e agilidade. Algum de vocês tem praticado modelo livre? Sabem alguma manobra?

    – Apenas observe.

    Bolha responde com uma segurança rara, pronto para surpreender seu professor. Ele monta em seu Jet que, apesar de não ser o ideal para manobras de freestyle, possui traquitanas extra por conta de suas rotinas de mergulho. Uma delas é a presença de quilhas frontais, artifício que transforma os jets em pranchas submarinas para imersões rápidas e rasas. Com essas quilhas, seus instrutores e colegas de mergulho costumavam realizar uma manobra chamada de Monkey Jump Invertido (ou simplesmente Canhão), sempre que queriam impressionar alguém – e era exatamente essa a motivação de Bolha naquele momento.

    Após uma rápida marcha ré, Bolha aperta o capacete enquanto anda em círculos para gerar ondas no tamanho necessário. Completadas duas voltas, ele dá um rápido cavalo de pau e encara a onda de frente. Em seguida, ajusta a potência do motor e, após um pré-burst, acelera rapidamente, aproveitando os 250 cavalos do seu motor para uma rápida arrancada. Utilizando a onda criada como uma rampa, Bolha dá um salto bem alto, arrastando o jet para fora d’água.

    – Uau! – O grupo não esperava um salto dessa altura, e admira a precisão do amigo ao atacar a rampa d’água.

    Enquanto está no ar, Bolha altera a posição dos jatos, fazendo-os encarar a laguna. Com dois toques no acelerador, ajusta a angulação, embicando o jet para baixo. Ele coloca os pés na manopla auxiliar e estende o corpo para trás, praticamente deitando no banco. O jet corta a água como uma lâmina de cozinheiro, afundando por completo. Um jet desses não só é difícil de afundar como, pelo contrário, a velocidade com que ele emerge é enorme. Nesse momento o Canhão é finalizado: com os pés apoiados no guidão, Bolha salta para cima como se estivesse sendo lançado por um morteiro!

    Nesse momento, não só seus amigos, como os freestylers que treinavam nas bóias ao lado uivam como uma matilha de lobos, aplaudindo a ótima execução da manobra.

    – Nossa Bolha, não sabia que você sacava essa! – Pit comenta, orgulhoso pela habilidade do amigo.

    – O pessoal do scuba tem me ensinado uns truques! Mas ainda não peguei tanto a manha das quilhas. – Bolha finge modéstia com um enorme sorriso no rosto.

    – É Bolinho, gostei de ver! – Complementa Lagoon. – Essa é muito perigosa pra ensinar pro grupo, mas podemos treinar a parte dos saltos!

    Apesar da animação de todos, Nina parecia impaciente desde que Lagoon abriu a boca para repassar o planejamento da tarde.

    – Que vantagem isso vai dar pra gente nas corridas? Eu falo que o Bolha só ta perdendo tempo com essas aulas de mergulho! Não foi isso que o professor falou? Que não deveríamos perder tempo?

    – Nina, confie nos seus instrutores. Não é porque vocês estão bem no ranking que não precisam mais treinar habilidades de base. Vocês ainda estão em formação, e ter uma boa base técnica desde cedo vai ser muito importante lá na frente.

    – Eu concordo com a Nina, vamos correr logo! E hoje eu vou fazer ela comer espuma!

    – Nem parece que vocês são da mesma equipe. – Comenta Guigo, também aluno da ARRAIA, participante da equipe Peixe Espada Samurai.

    – Ta bom Zap, e porque você ganharia dessa vez? – Nina responde ignorando o comentário do colega de classe. – E eu não to falando que não acho importante treinar, só acho que temos que ter foco.

    Afim de impedir que quaisquer ânimos se elevasse, Lagoon dá sequencia às atividades como planejado, sem deixar se afetar pelas poucas contestações. Após o aquecimento em estilo livre – feito a contragosto pelos dois, o treino teve foco total na passagem de revezamento, treinamento estrategicamente importante pois queimadas na troca de competidores podem custar bons segundos às equipes. Mesmo com as questões disciplinares, a equipe Senhora à Jato mostrava nos treinos porque poderia mesmo ser considerada uma das favoritas para as Provas Escolares, com desempenhos individuais superiores à média dos demais.

    Ao fim do treino, os team-mates repousavam nas sombras de toldos instalados no deck central, enquanto comiam seus lanches da tarde com alimentos selecionados, pela ala de nutricionistas da ARRAIA, para a dieta de cada um. Com os motores dos jets tirando seus merecidos cochilos, ficava mais fácil de perceber o silêncio – que estava ali desde o início da tarde. O silêncio era tanto que escutava-se o barulho do mecanismo que abria, espirrava e fechava, abria, espirrava e fechava, e dele saiam esguichos de água em forma de nuvem, refrescando as cabeças de quem por ali estivesse. Pit brincava com um mirtilo dentro do pote, guiando-o pelo circuito oval do recipiente enquanto desviava de torrões de cenoura. Bolha mastigava quase que rulminando, preferindo sugar sua batida isotônica pelo canudo para evitar, de qualquer modo, abrir a boca. Entre uma mastigação, um gole e um esguicho, alguém finalmente emite um som.

    – Nina, acabando aqui vamo ali na pista de drag tirar isso a limpo.

    Todos os alunos que estavam por perto percebem a faísca, e aguardam a resposta da colega com seus cantos de orelha.

    – Vamo agora que a pista ta vazia. Termino de comer durante a corrida mesmo, só preciso de uma mão. – Sabendo que irritaria Zap, Nina desdenha de seu amigo enquanto chacoalha uma das mãos ao lado da cabeça.

    Zap praticamente rosna.

    As pistas de drag são apenas espaços curtos e retilíneos, delimitados por bóias, onde dois competidores podem disputar provas de arrancada. São duas faixas de trezentos metros, separadas por uma cabine, de onde o juíz dá a largada para que ambos disparem ao mesmo tempo. Essa pista da praça é uma das mais utilizadas pelos drag-racers amadores da cidade, onde toda semana – de terça às oito da noite, depois da rádio-novela – há um encontro de pilotos montando jets que chegam a passar dos mil cavalos. Nesses encontros, é bastante comum que rusgas e disputas de ego sejam resolvidas, com malucos apostando até suas amadas embarcações em troco de recuperar a hombridade.

    Um tanto de gente chega na pista, e cada piloto se coloca em seus lugares. Zap na direita, Nina na esquerda, Pit e Bolha do lado de fora, pois recusaram-se a fazer parte da birra como juízes. Os colegas que ainda estavam pela praça se aproximaram para formar uma platéia em torno das boias, junto de curiosos e algumas pessoas que só seguiram o comboio até o local. O povo de Atalanta adora uma fila, não sei explicar. De qualquer maneira, o aumento da platéia colocava ainda mais fogo na situação. Um dos colegas, um ruivindo de óculos grossos, o primeiro que abriu a boca para falar com Zap, fora recrutado para o cargo de juíz, e já estava em cima da cabine para dar a largada. O som das vozes ia aumentando, e alguns até cogitavam recolher apostas afim de angariar umas rosadinhas.

    – Podem ligar os motores!

    O juíz começa a cumprir seu papel, e a dupla aciona os motores, rotacionando o controle de torque para o nível máximo. Após fixarem seus pés nas alças, ajeitam a postura para ganho máximo de aerodinâmica, mantendo as pernas agachadas e a cabeça baixa. Eles bombam os motores e injetam potência extra da bateria reservatória.

    – Um…

    Os motores espirram água a cada giro do acelerador.

    – Dois…

    Os pilotos firmam seus abdomens e travam o maxilar.

    – Três…

    Sufocam as manoplas para garantir o máximo de grip.

    – Vai!

    E eles partem! Ambos os jets tem potências similares, e seguem deslizando em linha reta. A disputa é acirrada, com os bicos trocando de colocação a cada instante, em uma linha imaginária traçada à frente dos cascos. Concentrados, fazem o máximo para segurar a aceleração nas coxas e barriga, evitando perdas de aerodinâmica. O Ab Shaper dá uma micro engasgada, fazendo Nina avancar míseros centímetros a frente. Tudo acontece muito rápido, mas para eles parece uma eternidade! Zap compensa a perda no controle da aceleração, mantendo a paridade. Faltando cem metros, Nina se assusta com uma brusca aceleração de Zap, que chega com folga na linha dos trezendos metros. Após ouvir o sinal sonoro que indicava a chegada, a segunda colocada confronta Zap de imediato.

    – Ah Zap, não era pra usar nitro!

    – Perdeu ué, aceita. Estamos nas regras da liga.

    – Ta vendo? Parece que não adianta conversar. Eu fiz esse monte de planos de treinamento e parece que ninguém liga! Então esquece esses planos, ok? Já estamos na frente mesmo, só vê se não faz nenhuma besteira que a gente se classifica.

    – Eu acho! Vou fazer uma prova mais rápida que a sua de qualquer jeito!

    – Vai sonhando!

    Mesmo com questões mal resolvidas, o treino fora proveitoso, e a equipe estava confiante na conquista do resultado. Apesar de estarem confortáveis com o progresso do grupo, Zap e Nina parecem sempre insatisfeitos com algo. Acredito que isso só poderá ser resolvido no dia da competição, quando suas habilidades e emoções serão enfim colocados à prova. Eles são jovens né, e jovens brigam… mas precisava brigar agora? Será que é muito sério?

  • Olho no horizonte

    – Vamos lá Zap, vamos resumir aqui o que vimos hoje, aí você já pode desamarrar essa cara e ir pro treino, certo? – Zap assente e finalmente coloca um sorriso no rosto.

    – Ceeeerto! – Continua Nemo, iniciando o fim daquela aula matutina – Então estamos em uma bela e charmosa embarcação, um iate envidraçado, com banheira e hidromassagem no sun deck. Acendemos o grill pois as madames estão com fome e merecem ser bem tratadas. Enquanto você traz uvas verdes e frescas para a princesa de volumosos cabelos dourados, uma tragédia começa a se desenhar. Ventos fortíssimos… a embarcação é colocada em perigo. Vocês esperam até a certeza absoluta de que a evacuação é necessária. A tripulação é escassa, e os passageiros entram em modo de surto. Onde antes viam-se rostos delicados, feições meigas e despreocupadas, e até um ar de superioridade, agora encarava-se natureza humana. Perante o terror, somos todos iguals…

    – Neeeemo! – tamborilando os dedos na mesa, Zap adverte o professor pela enrolação.

    Nemo arrastava o enunciado como uma birra pela baixa atenção de Zap no dia, mas enfim chegaria ao ponto da pergunta.

    – Ô apressado! Ishhhh, se acalme! Vamos lá. Você precisa voltar pra costa, e ficou sem aparelhos de navegação. Como faz?

    De maneira inteligente, Zap escolhe não devolver a implicância e foca na resposta.

    – Tá de dia, né? Porque ninguem acenderia a grelha de noite.

    – Aí, viu!

    Zap responde a tiração de sarro apenas com um olhar de impaciência, e continua.

    – Se está de dia, encontro os pontos cardeais pelo nascer do sol. Não, antes disso, procuro sinais de terra próxima como a presença de aves migratórias, gaivotas, pelicanos… a direção das monções dependendo de onde você estiver, ou até das marés, pode nos ajudar a encontrar a posição. As ondas que mostram a direção do vento… e as nuvens que refletem as ilhas! Essa é loucura! Mas de dia, o sol já ajuda bastante mesmo, né?

    – Depende, tem o ângulo também, mas certo. E dependendo do sinal, ele é bem, bem significante mesmo, como seguir uma ave que pesca perto da costa. Mas você errou, pois era de noite… vocês farrearam a tarde toda e agora estavam com fome.

    – Olha só, é um futuro em que eu não só encho a cara de plânctom, como virei um bêbado igual vocês! – Zap enfim retruca, mas logo emenda a resposta, impedindo réplicas. – De noite, mas depende onde. No hemisfério norte eu procuro pela estrela polar, que aponta para o norte verdadeiro. Posso usar a Ursa Maior, Órion e Cassiopeia pra ajudar. No sul, procuro pelo Cruzeiro do Sul, que vai apontar pro polo sul celestial, quatro ponto cinco vezes sua distância, onde está a Sigma. Escorpião é uma dica boa pra achar o Cruzeiro verdadeiro. Tem a via láctea também, se der pra ver, que mostra o leste-oeste… e ah, sabendo as posições de cada coisa que nasce no horizonte, constelações, planetas, aí eu sei a direção que eles nascem naquela época do ano… e isso eu vou ter que estudar muitíssimo ainda pra decorar, né?

    – A bússola estelar! Pegou a ideia. Tudo pode te ajudar a se localizar. Isso é importante, Zap! Não sei porque falam tão pouco sobre isso nas escolas!

    – Mas eu preciso mesmo aprender a navegar que nem os polinésios de mil e não sei quantos e bolinha antes de jay? Temos instrumentos, eu tenho minha bússola sempre aqui comigo!

    – Zapão, nosso mundo é todo água… e alguem pode se perder por aí como o seu… bem, você sabe… né? Você sabe!

    – Tá, tá, tá! Entendi! prometo que vou estudar bastante isso depois das Escolares, ok?

    – Ok, seu peste! Mas antes, repete aqui comigo, qual é mesmo o lema da navegação?

    – Conheça sua posição e olho no horizonte. Seja a natureza que o coração te guia!

    – Seja a natureza que o coração te guia. Isso aí. Ishhh! Depois de todo o conhecimento adquirido, a intuição vai te guiar. Tá liberado por hoje, vaza que eu limpo o quadro!

    Nemo mal começara a ajeitar a sala onde diariamente cuida da educação de Zap, e seu aluno já manobrava por entre as mesas do laboratório, repletas de bacias com amostras de água, musgos, tubos de ensaio fervidos e microscópios robustos (e caros), em direção à escadaria que leva à saída superior do laboratório.

    – Devagar, moleque! Se derrubar algum tubo vai ter que buscar algas lá no precipício! – O aviso era inútil, pois Zap já passara pela escotilha e colocava outros suprimentos de pesquisa em risco, no andar acima.

    Antes de abrir a porta que dá para o deck emerso, Zap dá um afago em Senhora, que repousava no sofá da sala com a cabeça apoiada no braço de vime sintético.

    – Tchau Senhorinha! E tchau Nemooo, até amanhã!

    ***

    Além de contar com a ajuda do Cruzeiro do Sul para a geolocalização, Atalanta tem outras especificidades – algumas por fazer parte do hemisfério sul, outras eu ainda não entendi o porquê. Uma dessas características é o clima quente, dividido em quatro estações: o baixo verão, a verão médio, o alto verão, e a estação das chuvas, que ainda é verão, mas consideramos quase como o nosso inverno, por ser mais fresquinha. Outra peculiaridade é como o Atalantiano simplesmente ignora as leis de trânsito, ô povo ruim de leme, viu. Outro ponto engraçado é como gostam de não só passar direções muito detalhadas, como discutir nomes de canais e localizações das coisas em geral. Experimente perguntar a localização de um anfiteatro e fique preso por quinze minutos em um debate sobre o nome do canal transversal que passa por trás do prédio da prefeitura, que você deve contornar após duas esquerdas e, depois do cruzamento, virar à terceira direita passando a botica de parede rústica em tom alaranjado – eu acho que ali é o Canal Augusto Carrara, inclusive. Ou o Marieta Nanini. Uma deles… enfim, porque começei falando do clima: pois está calor, como sempre, mas hoje está um calor de alto verão, eu diria, e o ponto de encontro escolhido pelo grupo é muito frequentado pela população nessas condições, tanto pela quantidade de estabelecimentos voltados ao refresco, como cafés, gelaterias e barracas de raspadinha, como para agradáveis passeios pelos jardins de água que tomam o contorno da praça.

    Em uma das mesas que dão para o canal à frente do Deck Café, uma família combatia o médio-verão dividindo uma enorme taça de sorvete de côco coberto com calda de gengibre e néctar de ninféia, uma fruta aquática bem comum na região. Na mesa ao lado, dois senhores também encontravam-se em combate – nesse caso, uma batalha de xadrez do mar. Como platéia da partida, além da família e uma jovem que terminava seu chá de aguapé, haviam duas garças e três dos quatro membros da equipe por ora intitulada Senhora à Jato.

    – Se ele não bloquear o Cavalo Marinho, em duas jogadas perde o Netuno – Pit, grande apreciador do jogo, fofocava seus palpites para seus amigos. – Suas melhores chances estão nas investidas com a Sereia! – Tanto Bolha como as garças pareciam concordar.

    O Café ficava bem na borda do centro comercial, em umas das pontas que cerceavam a Praça do Escambo – ou Praça Central – uma laguna articial utilizada para treinos e até pequenas competições amadoras de esportes náuticos. Durante o alto-verão, como parte do clima de final de ano, também são feitas ali apresentações de “fontes dançantes”, quando os jatos de água dançam e mudam de cor seguindo as batidas de músicas dancantes, geralmente eletrônicas, muitas vezes com andamentos extremamente acelerados – coisa de jovens. Essa praça, como é de se esperar, também era bastante utilizada pelo grupo para treinos e pilotagens recreativas, principalmente em épocas de calor – ou seja, em oitenta porcento do ano.

    O grupo já começava a olhar para o relógio quando quando reconhece o som do motor quatro tempos que se aproximava. Zap chega afobado, doze minutos após a hora acordada, o que ainda não configurava um atraso pela cultura local.

    – Faaaaala equipe argenelsons! Desculpa a demora, o Nemo me segurou na aula até o último minuto.

    – É Senhora à Jato. E a gente já tava quase saindo sem você. – Responde Nina com os braços cruzados e falando de canto de boca, como se mascasse um pedaço de capim-mimoso e vestisse um surrado chapéu de palha.

    – Mas olha, se a gente se perder no mar, vocês sabem que estrela fica sempre no norte celeste, independente da hora e época? Isso vocês não aprendem na ECA!

    – Estrela Guia? – Responde Bolha, com certa tranquilidade.

    – Não, é a Polaris! Estrela Polar!

    – Mas não é a mesma coisa?

    – Ah Bolha, sei lá! Hoje vamos treinar a passagem, né? Vamo logo!

    Falando de modo acelerado, Zap gira o acelerador enquanto move o AB Shaper em círculos, bem lentamente, jorrando água em todas as direções. Percebendo que todos ao redor, inclusive os senhores do xadrez, estavam prestes a iniciar contundentes reclamações, cada um do grupo pula para seu jet abaixo do deck.

    – Zap! Você não viu a cara dos senhores? Eles tavam putos da vida! – Nina comenta sorrindo, pois divertira-se com a situação.

    – Ah, quem liga!

    O grupo toma o rumo da praça central para iniciar os treinos daquela tarde, costurando o caminho entre botes, lanchas, barcos de serviço e táxis – muitos táxis. Dirigindo em alta velocidade, tiravam finas de embarcações e espirravam água nos passageiros dos vaporettos, até que levassem broncas de timoneiros ou da Policia Marítima, que por mais que fizesse vista grossa, ligava a sirene ora ou outra para impor algum respeito. O centro da praça era marcado por um deck circular que suportava um grande obelisco esculpido em pedra, com as figuras de três mergulhadores, como se descessem para o fundo da antiga cidade em busca de metal e quaisquer objetos valiosos – uma homenagem aos desbravadores, considerados a fagulha para a fundação da cidade. Sentado em uma das escadas posicionadas na grande sombra criada pelo obelisco está Lagoon, professor da ARRAIA e responsável pela aula-treino de hoje.

  • Capítulo 7: Provas Escolares

    Faltando duas semanas para as Provas Escolares, o grupo equilibrava seu tempo entre a finalização de seus filtros rústicos – o projeto interdisciplinar do semestre – e treinos para a tão aguardada corrida, que tornara-se oficialmente uma classificatória de chance única. Parte do programa municipal de desenvolvimento, as provas servem como principal termômetro para a evolução dos estudantes que optam por currículos esportivos, e incluem diferentes modalidades, como uma espécie de olimpíada estudantil. As Provas de Jet são, de longe, a principal atração do evento, e como instituído pelo Atalanta Jet Clube, são tradicionalmente disputadas pelas equipes de estudo de cada escola, incluindo a ARRAIA. Apesar de toda instituição de ensino poder inscrever equipes nas Provas, era difícil que as primeiras colocações não fossem ocupadas por estudantes da ARRAIA, mais bem treinados e preparados para competições – preparação essa que incluía o entrosamento de cada equipe, o que gera uma grande vantagem em provas de revezamento.

    Mesmo com a necessidade de trabalhar em equipe, Nina, Zap, Bolha e Pit faziam apostas e criavam uma rixa interna, pois apesar da vitória depender unicamente de que o último membro ultrapasse a faixa quadriculada antes das equipes adversárias, os tempos individuais eram contabilizados – o que já dava margem para comparações infinitas e, quiçá, a busca de recordes. Zap, por exemplo, faria de tudo para alcancar um tempo menor do que Nina, o que garantiria voltas entre as melhores da prova, diminuiria sua margem de derrotas contra a amiga, e o recompensaria com um litrão de suco de algas com umami extra do Deck Café – a aposta que o grupo fizera internamente.

    Na laje da academia, um punhado de embaúbas dançava com o vento graciosamente, mudando as sombras de lugar a cada rebolado. Daquele ponto, o centro comercial era visto por cima, e o térreo alagado cintilava com o sol que o atingia a pino. Acomodados em uma grande mesa de madeira protegida do sol por um pergolado recheado de trepadeiras, colares de jade alaranjados desciam quase rente às suas cabeças – e um deles, engracadinho que só, insistia em roçar a coroa na cabeça de Bolha, que a espantava como uma mosca d’água. Enquanto ajeitavam o carvão ativado em uma das camadas do filtro rústico, o grupo discutia os próximos passos do treinamento, seguindo um rígido planejamento de preparação.

    Apoiada pelo calendário desenhado em seu bloco de notas, Nina relembrava o cronograma da semana definido naquela manhã. No topo da folha, lia-se escrito “o infalível plano da equipe sem nome”.

    – Hoje e amanhã, precisamos praticar as arrancadas de revezamento. Se queimarmos a saída, são cinco segundos de punição! Pode custar a quinta posição!

    – Eu preciso firmar melhor a postura, minha lombar as vezes abaixa e perco um pouco de arranque… – Pit já realiza a auto-crítica antes dos amigos, lembrando as lições da academia.

    Entendendo ter-se aberto uma sessão de pronunciamentos, Zap vai no embalo levantando seus pontos de melhora:

    – Minha arrancada ta boa, eu preciso é acertar de vez o cutback caso tenha alguma curva mais fechada. A circulação de água do AB já ta normalizada. A mangueira reforçada que achei lá no cemitério ta segurando super bem!

    – Zap, não precisa inventar moda! – Nina corrige o amigo e colega de equipe. – Se a gente fizer voltas seguras perto de dois minutos e vinte, já ficamos com a quinta colocação. Foram os números que o Professor Lagoon comentou ontem!

    Incomodado, Zap retruca: – Nina, as coissas não são exatas assim, precisamos estar preparados!

    – Ai gente, eu até faria umas sessões extra de cardio, mas to quase chegando nos 100 metros e não posso ficar sem mergulhar essa semana. – Bolha coloca seu ponto na hora errada, tomando outra bronca de Nina na sequencia.

    – Bolha, uma hora você vai ter que se decidir entre a carreira de piloto e mergulhador. Mas ok, se cada um fizer sua parte, a gente leva essa! Não acho que seja tão difícil assim. Eu vou focar nas manobras evasivas que em uma prova dessas é muito fácil o povo se emaranhar todo – Nina ri sozinha, já que era a única que mantinha o bom humor, mas ao mesmo tempo falava sério, pois lembrava-se da largada da prova de final de ano da sua turma, que mais parecia uma atração de carrinhos de bate-bate.

    A confiança do grupo no plano era nítida pois, além de treinamentos extra que tanto vinham recebendo na ARRAIA como realizando por conta, a equipe tinha um bom histórico nas disputas escolares e, se mantiverem seu retrospecto, devem manter-se entre as classificadas com facilidade. O problema dessas Provas Escolares em específico é que, além da gana extra que carregará os adversários até seus limites, equipes desconhecidas devem surgir de toda Atalanta, vislumbrando a premiação especial. Além disso, há o nervosismo… e Zap parecia especialmente aflito.

    Passado o cronograma, Pit estala os dedos como forma de atrair atenção imediata.

    – Pessoal, agora um ponto importante. A gente precisa de um nome pra equipe, senão ganhamos a prova e vamos sair no Jornalista Enguia com esse nome horrível!

    Os três fitavam Pit dando a devida atenção ao assunto, e acenam a cabeça em concordância.

    – Certo! Alguma ideia? – Nina puxa o coro, como de costume.

    – E se for “Senhora à Jato”? Em homenagem à Senhora! – O grupo ri alto e não descarta a opção.

    – Começou bem! – responde Zap enquanto ria – mas acho que deveria ser algo que dá mais medo nos adversários, que nem o pavor que a gente sentiu lá no cemitério… algo como… “Os Fantasmas Mais Terrivelmente Amedrontadores de Atalanta”!

    – O Zap é muito fã do Fantasma mesmo né! – Bolha já responde com um argumento que exclui o possível nome, pois era péssimo.

    – Bom, vamos ficar com Senhora à Jato por enquanto? E surgindo um melhor trocamos? – Percebendo que o papo não evoluiria, Nina encerra a roda de ideias assim como começou.

    – E a Nina que decide tudo agora? Se é pra ter um nome qualquer, prefiro continuar sem nenhum. Temos que ter um nome à altura!

    O grupo responde à contestação de Zap apenas com olhares, e como nenhuma palavra é emitida na sequencia, a reunião se dá por encerrada. Nina estava mesmo mais mandona que de costume, e Zap parecia estar, também, mais incomodado que o normal, já que sofria internamente com a incapacidade de superar a amiga. – Não posso perder pra Nina dessa vez… – era só o que Zap pensava pois, se não conseguisse ser nem o melhor piloto do grupo, a tarefa de tornar-se um piloto internacional começava a parecer impossível – e para Zap, o impossível estava fora de cogitação.

    Durante a semana, a equipe Senhora à Jato (por ora) respeitaria o cronograma de treinamentos, visando estreitar o entrosamento. Em paralelo, Zap seguia um plano de ataque a parte, treinando seus cutbacks em horas extra a fim de, no mínimo, equiparar suas habilidades às de Nina. Pelo visto, mesmo competindo pela mesma equipe e pilotando não concomitantemente, a promessa era de que houvesse uma prova a parte entre os dois – pelo menos pela parte de Zap.

  • Trilogy

    Em meio ao mormaço e aroma embolorado, ouvia-se uma delicada progressão de piano. Em um sound system recuperado rodopiava o CD-ROM de Trilogy, na canção de mesmo nome, e Pirata garantia que a instrumentação mantivesse a cadência correta ao arremessar seus dedos ao ar dentro de cada cabeça de compasso, ora rendendo-se aos incomparáveis arpejos e trinados de keith, ora recitando melodias com as mãos e fala.

    We, tried to lie, but you… and I… know better than to let each other li-i-ie!

    O início de um virtuoso solo de sintetizador hiptonizava seus dedos para que acompanhassem as teclas imaginárias de um modelo Moog, mesmo que ele não fizesse ideia de que notas estaria tocando. Com a troca para um compasso ímpar, desistia completamente de orquestrar, seguindo no máximo as dicas da caixa e do chimbau. A sinfonia era a trilha sonora para a arrumação do depósito, que parecia aumentar sua capacidade de armazenamento a cada caça ao tesouro do seu proprietário.

    – Trilogia… será que haverá um segundo ato? Toda história tem no mínimo três atos! – Enquanto encontrava um canto para armazenar a nova maçaneta de bronze, Pirata refletia, conversando mentalmente com as prateleiras.

    – You’ll see the day another way! And they could put the sunshine for a nighttime where you lay!

    Era apenas forçar mais uma chapa de metal em meio a placas de poliuretano que o dia de trabalho no distrito comercial daria-se como encerrado, e a decisão mais importante do momento estava em decidir se dava uma passadinha em um dos bares de plâncton do deck central ou se era o caso de navegar até a região das minas para mergulhar rumo ao Kraken, seu dive bar do coração.

    – Will you stand up or will you freeze… that savage woman make you please…

    O Capitão rufava os tambores quando algo terrível acontece: uma leve brisa se espalha pelo recinto, entrando pela porta da frente junto com o som das docas. Os sinos da porta ressoam, unindo-se à percussão de Palmer. A pior coisa que poderia acontecer, faltando cinco minutos e trinta e sete segundos para o fim do expediente, era um cliente entrando na loja.

    – Puta merda! Já estamos fech… Ah! Marlene! O que faz por aqui? Já tô de saída, quer falar no caminho? – Completamente imóvel, Marlene não esboça a menor reação.

    – Quer dar uma passada no Kraken? Hoje é dia de estrelinhas em dobro! – Pirata tenta novamente, mas Marlene responde com uma imobilidade ainda maior, beirando uma nota no livro dos recordes.

    – O que foi? Tô te devendo algo?

    – Provavelmente sim – ela finalmente responde, movimentando o mínimo possível de seus músculos faciais – mas não é esse o assunto.

    – Xiii… o liquidificador emperrou de novo? Eu refaço o serviço, fica tranquila! Aqui na Loja trabalhamos com garantia de trinta dias! Sou um trabalhador sério!

    – Não, está funcionando perfeitamente. Só tinha um pouco de limo ainda, que eu até gosto do sabor… enfim! Poderia me dar cinco minutos? Depois você pode ir lá se empanturrar de plâncton barato. Naquele antro de mofo…

    – Xiiiiii…

    Marlene inclina levemente a cabeça e fixa o olhar na íris direita do seu velho amigo, que encolhe os ombros e assume uma posição defensiva. Num brusco movimento, Marlene desabrocha e despeja as palavras quase que todas ao mesmo tempo:

    – Pirata! O que te deu na cabeça de dar aquela bússola de presente pro Zap? Depois de tudo o que passamos? Achei que estivéssemos de acordo! Achei que ainda houvesse algum pingo de sanidade nessa sua… cabeça de bagre! Podre! Bagre podre!

    – Ah, é isso… é… entendo… – Pirata cerra os lábios em sinal de compreensão e caminha até a porta da loja enquanto estala os dedos e pescoço. Ele troca de lado a placa pendurada na vitrine frontal, encerrando oficialmente o expediente da loja, e continua a alongar-se como quem prepara-se para entrar no ringue.

    – Marlene, você tem que entender que é difícil pra mim também… eu achei essa bússola lá no cemitério… de barcos, né… achei até que fosse a do Franco mesmo! E tô com ela um tempão aqui, sempre que olhava pra esse troço, lembrava do seu marido! Ex-marido… marido… sei lá! Por que que logo eu fui achar isso? Era pra ser! Pra ser do Zap! Ele também merece ter lembranças boas do Franco!

    Marlene aguardava sua vez de falar, educadamente, mas cada resposta chegava com o peso de uma jubarte executando um salto do último trampolim.

    – Mas não lembranças que incentivem o menino a partir pra uma missão suicida, não acha? Pirata… combinamos de proteger essas crianças… de comum acordo… o que foi dessa vez?

    – Sabe Marlene, eu faço de tudo que posso pra dissuadir o menino de quaisquer ideias absurdas, mas talvez eu tenha feito isso instintivamente, foi meu subconsciente! Meus ancestrais têm falado comigo nos meus sonhos…

    – Já pensou se o Zap decide sair por aí pra procurar o Franco por conta de alguma falsa esperança dada pelo seu tataravô fantasma? Esperança não é pra qualquer um, Pirata! Esperança é um privilégio! Ele foi! Sumiu! Sumiu por que quis!

    – Eu só acho que o Zap deveria saber um pouco mais de algumas dessas coisas.

    – De que, exatamente, hein ô, baterista de coral? É, eu vi você aí balancando essas mãos que nem um polvo fora d´água. Pelo menos a música é boa. Mas você não leva jeito mesmo! O Zap ainda é muito imaturo pra algumas questões.

    – Mas não é sendo superprotetora que ele vai ganhar maturidade…

    – E nem pensando besteira, saindo escondido, morrendo de fome, sei lá!

    Uff! Conversa dura. Não me pergunte, também não sei do que estavam falando. Porém, pelas feições de cada um, parece que pensam parecido em alguns pontos. É difícil manter atitudes coerentes a todo tempo, né? E ninguém gosta de discutir com pessoas queridas, apesar de necessário. Marlene seguiu o rumo de casa levemente abalada, enquanto Pirata acabou indo para o Kraken, como esperado – afinal, nada como sentar-se a uma mesa há vinte metros de profundidade e rasgar opiniões sobre política e corridas acompanhadas de plâncton barato e petiscos em dobro para desanuviar a cabeça, né?

  • Recebam a ira de Gal!

    Os cabelos se mexem, e a figura começa a aumentar de tamanho na medida em que se aproxima.

    – Uaaaaa ha ha… quem ousas me desafiar? Em meu próprio salão de festas?

    Zap quase solta a bexiga ali mesmo, renunciando à sua ainda frágil hombridade.

    – Receberá a ira de Gal! Todo o pé que pisa em minha nau!

    Ajustando as tralhas em suas mãos com a esperança de que tornem-se armas anti-matéria, o grupo firma posição de defesa enquanto a aparição se aproxima, trazendo consigo um forte odor de glicerina. A reverberação daquela voz diminuia devido a proximidade, e o medo era que se tornasse um mero sussurro em seus pés de ouvido.

    – Marujosss…….

    Nesse momento, Nina e Zap já desistiam da classificação para a tal prova, das glórias de uma vida como pilotos profissionais, de encontrarem um grande amor ou de quaisquer aspirações em vida. Pirata já entendia que a renovação do estoque da loja teria que ficar para outra viagem – ou outra encarnação. Quando as ondas de odor de glicerina, que agora atingiam de frente as narinas do grupo, passaram a combinar com o batuque de um imenso colar de conchas, Pirata enfim teve um insight.

    – Frida! Desgraçada!

    Ambos caem em uma retumbante gargalhada.

    – Você devia ver! Suas caras de tacho!

    – Mulher! Eu acho que me borrei nas calças! HAHA

    – Esses dois aqui ó, bau bau, derreteram-se os cérebros!

    – HAHAHA!

    Após um tempo sem ar, Zap, ainda desnorteado, questiona Pirata com uma voz fina e incrédula.

    – Pirata!? Qual é a da assombração?

    – É uma velha amiga! HAHA! Falei pra não mexer com a Gal! Vem cá! HAHA! vocês precisam conhecer ela! – Zap e Nina balançam as cabeças em sinal negativo, ainda com suas bocas abertas e incapacitados a emitirem novos sons.

    Por mais que o cemitério não recebesse um grande volume de visitantes, era comum que exploradores da ilha acabassem aparecendo por lá nos mesmos dias, já que coletores experientes acabavam guiando-se pelos mesmos sinais como fortes ventos, marés ou agitações da natureza em determinadas direções, o que aumentava a probabilidade do solo estar revirado ou de aparecerem novas derivas pela ilha. Frida e Pirata já se conheciam de longa data, chegando a formar grupos de exploração recorrentes com Franco e outros entusiastas.

    Após saírem da “caverna”, o grupo sobe por uma escada reforçada com chapas de madeira e metal, que da acesso à antiga area social da navegação, com piscinas de água verde escura – praticamente viveiros de musgo – e uma vista para todo o cemitério. Apoiados no gradil, estavam agora confortáveis com as presenças uns dos outros para uma conversa amigável.

    – Frida, você traumatizou o Zap, olha como ele veio pensativo até aqui – cutucou Nina, como se minutos antes não tivesse entrado em choque da mesma maneira.

    – É o que dá mexer com os seres do além! Da última vez que a humanidade irritou os deuses, eles responderam com a grande inundação! – Responde Frida, ainda vangloriando-se de seu feito.

    – Mas você foi muito oportuna! – responde Zap, agora relaxado e sorrindo – no seu lugar eu teria zoado mais com a nossa cara. Mas Frida, – Zap mudava de assunto como se ela já fosse uma velha amiga – sei que você está brincando, mas tivemos esse assunto em história nesse semestre e to com isso na cabeça, porque você acha que os deuses nos castigaram desse jeito?

    – Zap! Para com essa baboseira! E isso é assunto pra falar com alguem que você acabou de conhecer? – interrompe Pirata, com uma braveza desnecessária.

    – Mas Cap, você sabe que essa coisa das partículas divinas é verdadeira, meu pai sempre falava disso! – Pirata, Pirata… – Frida interrompe, reforçando o discurso de Zap – você precisa para de ser tão cabeça dura! Zap, você sabe que eu vinha aqui com o seu pai e o Piratão aí, né? Conheci ele muito bem, e seus avós também. Os maiores oceanólogos que Atalanta já viu! E um casal de dar inveja – Frida sorri com os olhos ao terminar a frase, e prossegue com o complemento: – E Zap, seus avós replicaram essas pesquisas nas águas de Atalanta e encontraram os mesmos resultados, as partículas divinas, elas existem mesmo!

    – E você não acha que foi um castigo meio exagerado do pessoal lá de cima? – Zap insiste no questionamento, que agora não seria barrado pelo seu tio de consideração.

    – Olha, Zap, não foi a primeira vez, né? Pelo jeito que o pessoal desse planeta demora um pouco pra aprender.

    – É… parece que sim… e meu pai falava com você de ir atrás da ilha dos sonhos também?

    – Chega Zap – interrompe Pirata novamente. Esse tipo de pergunta não vai te levar a lugar algum!

    Frida ignora Pirata novamente ao apenas responder o garoto:

    – Zap, eu não sei muito o que aconteceu com o Franco, nem quais eram as perguntas dele… mas parece que ele acreditava que encontraria respostas nessa ilha lendária, sim. Talvez não seja a hora de buscar respostas, mas de entender que perguntas ele se fazia.

    – Frida! Chega! Que saco mulher! Para de botar minhoca na cabeça dele! E vamos embarcando que vem vindo tempestade. Tô falando sério, é perigoso!

    Com aparente desaprovação, Pirata é finalmente atendido pelo grupo, que aponta na direção da escada e ruma ao singelo cais construído a partir do casco de um catamaran remendoado, com uma cobertura erguida sobre pilastras de fibra de vidro – restos de uma elegante Azimut, de cerca de 50 pés, se meu olho estiver bom. Por sorte, uma tempestade estava mesmo por vir, trazendo sabedoria para a decisão do Capitão, que não escondia o alívio ao despedir-se de Frida.

  • Capítulo 6. O cemitério de barcos

    O êxtase com a notícia do evento preliminar agora se confundia com preocupação, já que o grupo havia discutido suas deficiências e traçara objetivos individuais de evolução para que suas performances estejam tinindo até o dia das provas escolares. Zap tinha como principais desafios, além de dominar a manobra de cutback, finalizar os últimas ajustes para incremento de potência do Ab Shaper – seu protótipo de Jet de corrida. Porém, para um aspirante a piloto desprovido de qualquer capacidade monetária para a aquisição de peças, só havia um lugar onde a sorte poderia resolver os seus problemas: o cemitério de barcos.

    Situado em um dos bancos de rocha que circundam Atalanta, o cemitério é basicamente uma grande ilha de lixo náutico, formada naturalmente pelo encontro de correntes marítimas e alguns desastres naturais aqui e acolá. É uma bomba d’água aqui, uma tromba ali, e uma redondeza recheada de tempestades tropicais, que garantem o mais puro suco do ferro velho marítimo – e algumas relíquias de brinde para os destemidos garimpeiros.

    Apesar do nome e da descrição amedrontadora, as incursões ao cemitério eram tranquilas se feitas com precaução. Zap já havia, por vezes, vasculhado cabines de embarcações estrangeiras, cockpits de aviões anfíbio da era pré-inundação, e todo o tipo de material que chegara até a ilha para descansar, após longas viagens fantasmagóricas. Sempre ao lado de seu pai e Pirata, incansáveis caçadores de recompensas, dessa vez vinha a esse enorme ralo dos mares acompanhado de Pirata e Nina.

    Após algumas horas de viagem, os navegantes atracam ao sul da ilha, protegida de grandes ondulações por uma pequena baía de rochas pontudas. Com a amarração da embarcação presa a pequenos postes implementados por visitantes frequentes, começam a caminhada pela rocha, mas logo se veem com os pés sustentados apenas pelo acúmulo de dejetos dos mares.

    A vista é fascinante. Apelidada pelos exploradores de montanha de aço, o “relevo” é desenhado por grandes estruturas metálicas. São fragmentos de embarcações que, sobrepostos, foram criando morros, planícies, e suas versões de desfiladeiros e arcos. Os restos de tudo o que possa ter boiado até ali foram se assentando dentre os espaços de rocha e bancos de terra, formando um solo instável, mas caminhável. A instabilidade geral do local é o seu grande perigo, ainda mais quando associada a quaisquer adversidades naturais do vento e do mar.

    Os exploradores começaram pelo canyon, formado pelo emparelhamento de dois transatlânticos – escolha óbvia para visitantes experientes, já que apesar de novas derivas costumeiramente aparecerem no fundo do canyon, o passeio tinha hora e condições certas para ser feito.

    – O fundo do canyon é uma beleza! Mas na maré alta, é horrível a correnteza! – Repetia Pirata, sustentando seu vício em rimas e trocadilhos questionáveis. Percebendo que a dupla não te dava ouvidos pela distância, tratava de trazê-los para perto.

    – Corram aqui, marujos insolentes! Me ajudem a levantar essa placa!

    Mesmo com a grande diferença de idade, era difícil saber quem era o adulto responsável ali. O cemitério era como uma loja de brinquedos para Pirata, daquelas bem grandes, cheias de… enfim, pense em uma loja bem legal, pois nunca vi uma dessas e não sei dizer como são. A questão é que seus olhos brilhavam diante de cada porcaria encontrada, e todo o trio compartilhava dessa empolgação, como acredito que você já esperava.

    Enquanto Pirata vagueava em busca de bugigangas, a caça de Zap era mais focada em peças para seus upgrades como bombas, mangueiras, e materiais que reflitam luz (estão super na moda). Nina vasculhava por poças interessantes e seguras para uma apneia de exploração, já que a imensa maioria do tesouro encontrado no novo mundo sufocava-se debaixo d’água. Olha ali, uma poça das boas. Após uma imersão de 6m, a mais esperta do grupo já volta com o primeiro achado: um deteriorado saleiro de plástico.

    – Será que essa tem salvação? – pergunta Zap para Nina, a respeito de uma hélice manca de uma pá.

    – Ai, acho que não, . Teria que reforçar o material com química, né? Acho que não aguenta. Senão alguém teria pego. E você achou fácil na superfície…

    – Tem razão – assume Zap com chateação –, eu só queria achar algo pra melhorar o passeio lateral… ou ganhar mais potência… depois que eu vi os Jets dos prós de perto percebi que o meu ainda tá muito longe…

    – Zap da Silva Silversson, para com esse drama! Seu Jet já é melhor do que qualquer máquina intermediária da Copa. O que você precisa é correr! Um bom piloto tira nó de qualquer máquina! Olha a Titia! O Rick! Eles tinham o melhor Jet?

    Pirata chegava perto da dupla com um cilindro enorme na mão, assimilando o final da conversa

    – É por isso que ela ganha de você Zap! Mecânica não serve de nada sem coragem! – Zap bufa silenciosamente, mas acena em concordância.

    – E o que é essa coisa, Cap? – questiona Nina.

    – Ah! É uma bazuca, eu acho! Deve valer milhares de rosinhas! Ou é só uma bolsa muito esquisita. Já teve cada moda nesse planeta, nossa senhora, eu vejo nos folhetos. Enfim, eu descubro na loja. Já deu por aqui, né? Zap, essa escadaria à sua esquerda dá na ponta da planície, vamos por ela!

    A escadaria desembocava em uma escotilha, que se abria para uma das “cavernas” da ilha – o interior de uma ala de passageiros do resto de transatlântico, com corredores e salões tomados pelo limo e uma consolidada comunidade de crustáceos. Recomendava-se nunca entrar em embarcações pelo risco de desmoronamento, mas os salões do navio Rainha Gal foram escorados e reforçados ao longo do tempo, por conta de sua posição estratégia que facilitava o acesso – e a saída às pressas – ao Canyon.

    – Esses salões podiam ser mais elaborados, né? Olha o tamanho desse navio, devia ser super chique! E tão sem graça, esse espação todo sem nada… faz até eco – Zap continuava seu show, ecoando injúrias pelo salão – Feio! (…eio ……eio ………eio) Sem graça! (…aça ……aça ………aça) Coisa de rico cafona! (…ona ……ona ………ona)

    – Para com isso Zap! Quer que o teto caia na nossa cabeça?

    – Você se preocupa demais! Olha o tamanho dessas toras de suporte!

    – Ela tem razão Zap, mas por outro motivo… você quer mesmo enfurecer o espírito de Gal? Ela ta aí, vendo você zombar da sua aparência!

    Pirata arranca risadas do trio, situação que encoraja Zap a desafiar Gal uma última vez: – Ga-al! (…al ……al ………al) Cadê você remelenta! (…enta ……enta ………enta)

    – Quem ousa me desafiar? – uma voz rouca replica do fundo do salão, congelando cada pequeno músculo de seus corpos. Sem ideia, capacidade ou coragem para reagir a situação, Zap e Nina apenas se entreolham de canto de olho. Imbuído de sua responsabilidade pelos mais novos, Pirata é o único que toma a atitude de rotacionar a cabeça alguns graus para a direita, buscando identificar a entidade. Se depara com longos cabelos brancos, escorridos como uma grande queda d’água.

  • Dessalinizadores UNI™

    Blém blém, blém blém…

    blém blém, blém blém…

    blém blém, blém blém…

    Soa o alarme que indica o fim do recreio na ARRAIA – a Academia De Pilotos de Atalanta, interrompendo o aquabol de garrafa pet e deixando algumas meia-fofocas prontas para se desdobrar, ainda mais mal contadas. Localizada na região noroeste da cidade, próxima ao centro, mas fugindo um pouco da balburdia do miolo comercial, a ARRAIA funciona em um prédio de três andares que fora de fato uma escola no passado, escolhido propositalmente pelo simbolismo – a restauração da educação.

    Apesar de o térreo da antiga construção estar completamente tomado pela água, o prédio mantém três andares habitáveis, já que um novo fora construído sobre a laje, revezando-se em alvenaria, paredes e pontes de madeira. Diferentes pontos de sombra são aproveitados como ambientes externos graças às copas de embaúbas e copaíbas, além de toldos e coberturas forradas de trepadeiras, que deixam rastros pontilhados de iluminação por todo o chão. Por dentro, as salas de aula são rústicas, mas bastante charmosas e conservadas, tomadas por uma grande variedade de tons de verde, sejam de samambaias pendentes como de folhagens e arbustos de médio porte.

    Blém blém, blém blém…

    blém blém, blém blém…

    blém blém, blém blém…

    Para a tristeza da molecada, o sino insiste em badalar. Desolados, os alunos do Salamandra B retornam à suas carteiras para mais uma aula de estudos históricos & sócio-política.

    – Boa tarde classe! – Apesar da simpatia, a saudação da Professora Gwenny soava muito mais como uma bronca. – Estão animados… é ansiedade pela aula de hoje? Não né? Marcos! Senta já! Zeninha, para de papo e tira isso da boca!

    Não posso falar por todos os povos do mundo, mas em Atalanta, a educação é levada muito a sério. O período de reconstrução da civilização após a Grande Inundação passou por tempos sombrios, de muita desumanidade, o que trouxe luz à importância do desenvolvimento da cidadania, de valores de empatia e colaboração, e do autoconhecimento. Sem a colaboração, a cidade molhada não teria passado de um dormitório de mergulhadores e mineradores, já que os recursos eram ainda mais escassos no início da colônia.

    As aulas de história tinham grande peso no currículo escolar, já que a comunidade finalmente entendia que a melhor forma de não repetir os mesmos erros no futuro é conhecendo bem o seu passado – e não escondendo ou deturpando fatos, por mais asquerosos que sejam. Por sorte, o Conglomerado Union™ – ou apenas UNI™ – exercia um grande papel filantropo ao doar livros e materiais escolares para municípios de todo o mundo, atualizando seus materias anualmente – o que ajuda bastante aqueles que miram vagas da Universidade Internacional.

    PLAU!

    A turma se cala com a palmada que a Professora Gwenny profere na inocente mesa de madeira reciclada e restaurada através de uma pátina bastante questionável.

    – Estão mais calmos, meus amores? Pois vamos abrindo esses livros na página trinta e sete.

    – Bolha! Já que você não está muito afim de ficar calado, pode ler o primeiro parágrafo para seus queridos amigos?

    Acuado, Bolha segura a bufada e, ao transferir seu olhar para o rosto da professora, aceita automaticamente a sugestão.

    – Certamente… começo aqui, do começo?

    – Certamente, do começo!

    – “Capítulo 12. Agricultura hidropônica

    Após a Chuva de Trinta dias (ou “Águas de Março” como é chamada no hemisfério sul), os amplos lotes de terra antes usados para o plantio e manejamento de animais tornaram-se extremamente escassos, aumentando a necessidade do uso de espaços aquáticos como berço para a produção de alimentos. Esse contexto contribuiu para o imenso avanço nas técnicas de agricultura hidropônica, da botânica sub-aquática e de superfície, além dos enormes avanços no aumento de eficiência da produção energética renovável. Como disse Schubv… Shub-viz…

    – Shubviznik! – Auxilia a professora para desatolar a leitura de Bolha.

    – Ele mesmo – complementa Bolha na tentativa de fazer um gracejo – Grandessíssimo Shubviznik!

    – “Como disse o sociólogo Schu-bi-viz-nik no livro “Vida Líquida – Viemos da Água e Para a Água Voltamos, o futuro da humanidade talvez não teria sido possível sem a revolução hidropônica e a democratização dos dessalinizadores UNI™.

    – Glorinha, continua você, mas direto do “Você Sabia” que é disso que quero falar hoje.

    – Claro professora, com o maior prazer! – responde a preferida, fazendo Nina revirar o olhar para o teto.

    – “Você Sabia?

    Foi a partir de amostras coletadas para o desenvolvimento de novas culturas hidropônicas que o microbiologista Denis Denys percebeu pequenas mutações na composição da água marinha. Com essa descoberta, as comunidades científica e religiosa finalmente faziam as pazes pois, pela primeira vez, haviam provas que confirmavam a penetração do Cometa Nuvem “Neptuno” na órbita terrestre, o que explica a Grande Inundação do fatídico dia 6 de março de 2026, descrita nos Livros Sacros como uma punição divina pelos maus-tratos ao planeta.”

    – Obrigado Glorinha, pode parar por aqui. Quem sabia dessa curiosidade? – Alguns alunos levantam a mão, afim de impressionar os colegas com sua inteligência elevada – Uau! Quanta gente esperta por aqui! – Responde Gwenny combinando o abrir da boca com o balanço da sua cabeça. – Viram só como é importante estudar os Livros Sacros? E a microbiologia também, lógico! Como futuros pilotos, vocês precisam dominar conhecimentos que envolvem a sobrevivência em alto mar, principalmente aqueles que optarem por passar suas vidas em naus mercantis ao invés de pistas de corrida, e como vocês já aprenderam nas aulas de biologia, a água é essencial para a manutenção da vida. Nosso corpo precisa dela para a realização de processos metabólicos e para transportar substâncias. Como o corpo não armazena água, a água deve ser reposta constantemente, certo?

    – Ceeeerto! – a classe responde em coro.

    – E beber água marinha, ao invés de hidratar, vai desidratar seu corpo, certo?

    – Ceeeeertoooooo – a classe reponde com maior veemência, aos risos.

    – Que bom que estou certa! – responde a professora abrindo um sorriso. – Por conta da escassez de água doce, a filtragem da água se tornou condição para a vida de noventa e tantos porcento da humanidade, quase cem! E isso não só por conta da dessalinização, mas também pela filtragem desses outros microorganismos encontrados na água, os citados na nota que a Glorinha leu, que podem surtir efeitos ainda não mapeados quando ingeridos pelo ser humano. Agora vocês devem estar se perguntando por que estou falando de biologia se essa aula quem dá é a professora Hanna… acontece que, como estamos chegando ao fim do semestre, começaremos o projeto interdisciplinar a partir da semana que vem, e dessa vez o projeto abarcará as aulas de estudos históricos, biologia e trabalhos manuais. Construiremos um filtro rústico, como os da época da reconstrução! Legal, né?

    – Ceeeertoooooo! – os alunos respondem ainda mais alto, fazendo com que Gwenny ao mesmo tempo desse risada e sacudisse as mãos como uma ordem para que ficassem em silêncio.

    – Lembrando que esse trabalho não é optativo, ok? Todos precisam participar, mesmo quem cumpre regime domiciliar. Nina e Bolha, não esquecam de avisar o Zap, ok? Esse projeto ele terá que executar aqui com vocês, presencialmente. Peixoto! Vê se dá um toque no Elvo também.

    Com um jóia em cada mão, o trio confirma o recebimento das tarefas. Quando a turma já ensaiava aumentar os volumes de conversas e tirações de sarro, Morgado, o mais fofoqueiro dos inspetores escolares, enquadra seu rosto enrugado na pequena janela de vidro retangular da porta de madeira, pedindo autorização para deixar um recado. Puxando os quatro dedos da mão para trás, Gwenny autoriza o ingresso do inspetor na sala, chamando-o para dentro.

    – Olá Olá, bom dia quase tarde! Tenho um anúncio especial pra fazer hoje, estão preparados? – Gesticulando suas mãos próximas à boca, Morgado aponta para os alunos enquanto divide com gosto a posse da informação. – Como vocês sabem, as etapas finais da Copa dos Becos costumam ter eventos preliminares, e o comitê decidiu que esse ano uma antiga tradição será retomada: o evento da etapa final será protagonizado por equipes júnior!

    Em uma fração de segundos, o volume da sala subiu há insalubres decibéis.

    – Calma meus futuros corredores! Ainda não acabei! Não obstante, o conselho instituiu que os métodos de participação também serão os mesmos de anos atrás. Ou seja, as equipes júnior mais bem colocadas nas Provas Escolares de toda Atalanta que terão direito a participar do evento. Se alguém decidiu não participar nesse semestre… pense bem!

    Ferforosos e de olhos esbugalhados, Nina e Bolha se fitavam sem emitir palavras por um período de tempo considerável, incrédulos pela eventual oportunidade.

    – Bolhaaaaaa, além de tudo, é a nossa melhor chance de assistir a finalíssima!

    – Era isso que eu ia falar! – Bolha responde o óbvio, apenas para reforçar que também possui um cérebro capaz de raciocínios lógicos.

    Blém blém, blém blém…

    Gwenny dá o recado final em meio aos sinos que indicam o fim da aula.

    – Pessoal! Entendo a empolgação, então semana que vem falamos do projeto interdisciplinar, ok?

    Blém blém, blém blém…

    – Simmm! – a turma responde em coro, gerando uma bagunça sonora ainda maior

    Blém blém, blém blém…

    – E não é pra deixar de fazer as tarefas do projeto hein!

    Blém blém, blém blém…

    – Simmm!

    Blém blém, blém blém…

    Em meio a um completo caos, Nina e Bolha vazam da sala em altíssima velocidade, desviando de seres humanos com rodopios e sobrepondo lixeiras e bancos com manobras dignas dos antigos patins in-line. A direção é a sala da turma Girinos A, um ano mais nova, onde poderão descobrir se Pit já sabe da grande notícia. Zap deve receber as boas novas em cerca de uma hora, no encontro do grupo para os treinos práticos da tarde, quando provavelmentre seus músculos da face sofrerão uma grande contração, gerando uma abertura de boca além do costume – tudo isso para que ele possa emitir um grande urro de empolgação – e hoje a noite, a equipe AR98G3X deve passar horas pendurada nos dutofones, traçando estratégias e planos de treinamento, e confabulando sobre como seriam suas vidas após uma vitória suprema. Pra mim, se a equipe sair dessa com um nome decente, já seria uma vitória incontestável.

  • Senhora! Senhora!

    À bordo de Morkus, o submarino compacto de Nemo (está mais para um hatch, o porta-malas não é lá essas coisas), a dupla cortava o trânsito pelas vias inferiores a caminho da residência/laboratório do professor, e Senhora acompanhava a nado pelo lado de fora. Apesar de menos adensado, o tráfego submerso segue as mesmas regras de trânsito da superfície, com limites de velocidade, rotatórias e definições de direção. Setas indicando o sentido das vias foram pintadas nas faces dos prédios com tinta fluorescente, e canhões de luz dividem os sentidos das avenidas principais. Alguns restos da civilização antiga também acabaram se tornando referências de localização, como a ponte metálica ao fim do canal principal, o cemitério próximo às fazendas de energia e o antigo estádio municipal – que hoje abriga os mais requisitados dive bars da cidade.

    Nemo mora em um prédio todo só dele, localizado em um canal secundário próximo a praça das águas. Vindo por baixo, era fácil de localizar seu edifício, pois no térreo havia um enorme letreiro do Marc Donnel’s, uma antiga rede de restaurantes, que ele fazia questão de manter iluminado. Um fato curioso é que o Marc existe até hoje, acredita? Sim, na superfície! É uma das redes mais antigas do planeta. Eles tem um lanche, o Marc Minhoca… hummm… intragável. Mas eu adoro as algas fritas!

    Como não costumava passar muito tempo abaixo da superfície, Zap adorava esse tipo de passeio e, hiperativo que só, não passava mais de quarenta segundos sem fazer alguma pergunta. Não que ele não fizesse muitas perguntas em outras situações, né.

    – Professor, o Morkus é de que época? Sei que meus avós construíram ele em cima do chassi de outro, mas não consigo imaginar como era.

    – Era um submarino bem antigo, dos tempos secos ainda! Mas ficou irreconhecível. Esses janelões redondos que deixam ele com cara de esquilo, eu nunca vi em veículo algum. Fizeram assim pra aumentar a área de observação durante as pesquisas. E porque sua avó adorava esquilos.

    – De onde veio essa coisa da minha avó com esquilos? Sempre achei engraçado.

    – Talvez lembrasse a ilha onde seus avós moravam, na época da fundação de Atalanta. Tem muitos esquilos lá, lembra?

    – Verdade… Faz sentido…

    – Na verdade não faz não! Iiishhi! – Nemo responde seguido de sua característica risada que, em uma espécia de parábola tonal, chega a um falsete dos mais agudos – Não deveriam existir esquilos nesse hemisfério! Algum casal de esquilos extremamente fértil deve ter vindo em um navio comerciante, só pode. Iiishhhi!

    – Queria conhecer mais desses bixos de terra.. queria conhecer os Andes, na verdade. Você já foi pros Andes? Ou pros Estados Independentes? Meu pai já foi, disse que comem mosca frita por lá!

    – Zap, parece que chegou algo pra mim, coloca o traje que vamos entrar por baixo. A comporta enguiçou de novo, acredita? Senhora! Senhora! Me ajuda aqui que estou sem óculos! – inutilmente, por incontáveis motivos, Nemo convocava Senhora para o serviço de flanelinha que não seria realizado. Afinal, ela é apenas uma foca. Uma foca chiquérrima, mas ainda assim uma foca.

    Enquanto Nemo tinha problemas com a baliza de Morkus, continuava o papo com a descrição de sabores peculiares que já degustou no estrangeiro.

    – já comi lagarta fresca, panqueca de arraia, salada de algas azuis… Issshi!

    E a cabeça de Zap visitava mentalmente cada lugar, na tentativa de encontrar pistas, se fazendo as mesmas perguntas de sempre: será que meu pai passou por lá? Será que meu pai encontrou a ilha que não existe? Será que meu pai ainda está… vivo?

  • Capítulo 5. Chips de Alga

    Gotas largas caiam sobre a superfície dos canais, gerando círculos que ampliavam de tamanho na mesma velocidade em que outros surgiam em seus lugares. Quando se fundem, esses círculos criam um padrão chamado pelos povos da água de “noivinha” – já que essa textura foi muito replicada em rendas de vestidos de casamento na década passada. De rebote, a chuva leve trazia o petricor para a atmosfera, unida a um leve perfume da vegetação que emerge e faz seu caminho acima zigue-zagueando os raios de sol da manhã. Quedas de água como essa são bastante comuns após corridas e grandes eventos, quando bombas atmosféricas retardam precipitações afim de manter intactos os cabelos espetados e questionáveis trajes de festa daqueles que toparam a farra. Com a ameaça da água vindo de todos os lados, uma boa opção para manter os cabelos intactos é algum tipo de teto, o que um bar de plâncton, por uma feliz coincidência, pode oferecer. E nas mesas dos bares não havia outro assunto senão a surpreendente corrida de Cavalo Horse – agora “Pégasus” – Marinho, além de jarros de plâncton e porções de ouriço (tem saído bastante).

    Falando em ouriço, Zap também protegia sua cabeça da chuva com um teto, enquanto deliciava-se com chips de alga fresquinhos e era observado por sua mãe, que aguardava meia volta no ponteiro para iniciar as reclamações.

    – Filho, será que uma vez na vida você não vai chegar atrasado na aula?

    – Mas mãe, essa alga que você fez está gostosa demais! Além disso, minhas nádegas estão perfeitamente posicionadas na ondulação da cadeira, e o sol que transpassa o friso da porta aquece minha sobrancelha direita na temperatura ideal, equilibrando o conforto térmico do meu rosto, entende? Não é você que fala para aproveitarmos os momentos de alegria quando se apresentam para nós?

    – Engraçadinho – responde Marlene com um sorriso de canto de boca, claramente à contragosto. – Parece que toda a educação que te damos só adiciona mais munição para o seu arsenal de desavenças. Pois desencaixe esse cóccix e leve uma punhada de chips para o lanche. Inclusive, leve um bocado pro seu professor.

    Enquanto anda pela cozinha à procura de um pote, Marlene dá um beijo na cabeça de Zap, que entende o recado e levanta-se para sair. É aquela coisa: a bronca ensina, mas paralisa. O carinho movimenta.

    Já contando com a saída breve, Zap tenta uma jogada perigosa, sabendo que seus amigos nunca o perdoariam se ele não ao menos tentasse.

    – Mãe, eu sei que você não gosta das corridas, mas se ninguém puder levar a gente… você não consegue uns ingressos de cortesia com o pessoal do laboratório? A gente queria muito ir nessa…

    Marlene respondeu com um olhar que faria os mais treinados oradores travarem a fala, fingindo um pigarro para tomar uns goles de água. Grande conhecedor das expressões congelantes de sua mãe, Zap desiste rapidamente do pedido e respira fundo de maneira longa e silenciosa – o mais silencioso que era possível.

    – Ué, conheço essa voz – Marlene comenta fingindo não ter sequer ouvido a última fala do audacioso filho.

    Zap compra a ideia e se aproxima da porta, onde de fato escuta sons conhecidos vindas de fora. Ele gruda o ouvido na madeira, inclina a cabeça para aguçar sua audição e, como uma antena, move a cabeça milimetricamente até atingir o ângulo ideal. Quando estava perto de identificar a voz, que vinha acompanhada de um tremelicar de pedras, se assusta com uma batida na porta.

    – Ô lasca! Quem é?

    – Foi aqui que pediram um sub-táxi?

    – Nemo! – Zap abre a porta com explicações na ponta da língua – O que o senhor faz aqui? Eu já tava indo, não ia me atrasar não… eu juro! E olha, tava te levando uns chips!

    – É disso que eu tô falando, menino! – Nemo enfia a cabeça para dentro da porta e acena para a responsável pelo agrado. – Bom dia  Marlene, muito obrigado! Você sabe que eu adoro essas coisinhas né!

    – Sei sim professor, mas eu é que agradeço. Nunca poderei retribuir o suficiente pelo que você faz por Zap. – O humor de Marlene havia mudado da água pro rum.

    O sistema educacional da Cidade Molhada é um dos principais pilares da comunidade, já que é a partir dos exames realizados nas ECAs (Escolas Comunitárias de Atalanta) que a colocação dos jovens é sugerida, sempre considerando as demandas latentes em cada tempo e espaço. Se deu bem com cálculo e marcenaria? Provável que vá para a construção de decks. Mãos de fada? Tecelagem… ou medicina… ou mineração subaquática, quem sabe? Dependendo dos testes de aptidão, você pode se candidatar à política ou à limpeza de fossas. Ou aos dois, já que exigem skills muito parecidos.

    Aqueles que percorrem trilhas científicas ou esportivas, geralmente buscando a disputa de vagas na Universidade Internacional, também devem realizar esses exames para se manter em suas respectivas academias (como a ARRAIA, por exemplo), correndo o risco de perderem suas cadeiras caso não atinjam as notas de corte. Mesmo as Academias tendo foco em estudos técnicos, seus alunos ainda cumprem o currículo tradicional instituído pela direção das ECAs (Como é o caso de Pit, Nina e Bolha),ou podem optar por cumprir essas disciplinas em regime domiciliar (caso de Zap) – desde que não deixem de realizar os exames trimestrais. Após a partida de Franco, Nemo assumira a educação particular de Zap, dando continuidade aos métodos que lhe foram aplicados desde quando ainda era uma pequena faísca de gente. Franco sabia que seu filho estaria em boas mãos, já que Nemo fora até então seu grande parceiro de laboratório.

    Após uma crocante mastigada no presente recebido, Nemo apressa Zap para dar fim ao papo de comadres: – Está pronto garoto? Deixe seu Jet aí que hoje tá chovendo então vamos por baixo.

    – Iha! É hoje que vamos visitar as minas de areia?

    – Não, isso fica pra semana que vem. O exame trimestral é nesse fim de semana, seu cabeça de vapor!

    Ao se virar para tomar rumo, Zap é ofuscado pelo brilho de um imenso colar de pérolas. – Senhora! Você veio! Botou até roupa de sair!  – Senhora, a foca de estimação de Nemo, é recebida com três bons afagos.

    – Está chiquérrima, né? Foi presente de aniversário! (risos). Agora vamos que há muito conteúdo a ser revisado! E Marlene me esgana se você não passar nessa prova! – Finalmente, o trio parte para mais uma jornada de conhecimento.

  • Vacilou, é água!

    – Vaclilouuuu é água! É daaaada a largadaa! Ai que emoção! Aiiii queeee… tensão? – O momento entre a largada e a primeira curva era um dos mais caóticos, já que os pilotos, ainda embaralhados, fazem uso de seus artifícios de confusão todos de uma vez. Passarinha metralha rápidas descrições do que apenas seus olhos de rapina conseguem ver: – a fumaça a-bra-ça a paisagem, farol pra quem tem! Princesa Serrote imbicando pela esquerda. Perpendicularmente um dos esbranquiçados jets da Equipe Água Rás, rasgando pelo meio. Lá de trás Fantasma salta três posições de imediato. Sunga acompanha a estibordo.  Os motores estão a toda eletricidade! Passa Robertinho, passa Vespa, opa opa! Já nos primeiros metros… tchibum! É isso mesmo Casarão?

    – É isso mesmo Passarinha, tchibum! Antes dos cinquenta metros já temos três baixas! – com os olhos n’água, Casarão analisa rapidamente a primeira surpresa do evento – me parece que Vespa puxou o manete para cima de Princesa, que fez o cutback, escapou e deixou a bomba para os cascos de Kami Kaze e Peixe-Boi!

    Afiado como sempre, Ricky Golfinho tece uma crítica ríspida como primeiro comentário:

    – Se deu mal, né? Isso é inexperiência! Piloto de liga tem que saber ameaçar o passo cruzado sem perder o grau do propulsor! Tá louco!

    – É Ricky – Passarinha complementa enquanto balança a cabeça em sinal de acordo – não é a toa que o Vespa vem frequentando o pelotão frontal de largada por toda a temporada!

    Após a segunda curva, os competidores terminam a sessão quadriculada – que tem esse nome pois, após a largada, as luzes imediatamente se se alteram para um padrão quadriculado indicando a linha de chegada – e iniciam a travessia pelos becos, sessão que exige grande técnica por conta do pouco espaço entre as paredes das casas somado à curvas de noventa graus. Nessa sessão, os pilotos do pelotão de trás fazem a festa, colecionando ultrapassagens em velocidades incompatíveis com a natureza dos canais.

    Passarinha segue atenta e transmitindo cada detalhe aos ouvintes:

    – Pessoal, pessoal, já na primeira volta podemos ter uma ideia de como será a configuração dessa prova. Os líderes do campeonato já vêm se firmando no pelotão intermediário, mas vemos certa dificuldade nas ultrapassagens de tiro longo por parte de Cavalo Horse Marinho. Tia Vânia e Vin seguem colados no terceiro terço da tabela, enquanto Princesa segue na liderança… vacilou… é água! Solta a vinheta Flavinha!

    “Copa d-d-d-dooos Becos! Só aqui, na Rádio Comunitária… Briiisa Marinha! Não percam a promoção de lua cheia das lojas Taturanas! Colchões de ar King Plus a partir de três porcelanas rosadas! É isso mesmo, só três rosinhas! Promoção válida até o fim dos estoques!

    ***

    – Gente, vocês não acham que o Vespa tem implicância com a Princesa? Não é a primeira vez que… – Nossa, também acho! – Pit interrompe Nina, já concordando antes que ela terminasse o raciocínio.

    – Acha o que? – interrompe Nina em retorno – pode deixar eu terminar de falar? Saco! Eu ia justamente falar que ele subjuga ela por ser uma garota, mas ela é uma Pilota muito mais bruta do que ele!

    – Desculpa mana, não foi minha intenç… – Ei! Sem briguinha de irmãos na hora da corrida! Pit, você não pode interromper sua irmã assim! – interfere Bolha, desconsiderando que Pit já havia reconhecido e se desculpado pela interferência. Bolha tinha um grande senso de justiça, mas uma tremenda falta de tato para colocá-lo em prática.

    De fundo ouvem-se altas risada de Zap, acostumado com essa confusão. Pit e Nina juntam suas risadas às dele, e Nina comenta por cima, invertendo o sorriso para adicionar uma leve chateação ao seu tom de voz: – ai, se essa corrida já tá assim, imagina a última prova. Ia ser incrível se a gente conseguisse ver ao vivo…

    – Se o pai do Zap estivesse aqui, já estávamos lá, né! – responde Pit, que complementa: – se nossos pais não estivessem sempre ocupados com os turistas… e sua mãe, Zap, não pode levar a gente?

    – Ela odeia as corridas, vocês sabem! E nunca deixaria irmos sozinhos.

    Após uma breve reflexão, Nina joga uma ideia na roda:

    –  E se… o Pirata… levasse a gente? Afinal, ele sempre estava junto quando íamos em grupo!

    – Boa ideia! Aí meus tios e primos talvez se animem também! – sugestiona Bolha.

    Bolha vem de uma família de mergulhadores hippie e, após a decisão unilateral de seus pais de tentarem a vida nos Andes, tem sido criado por seus tios e pela comunidade como um todo. Apesar da promessa de seus pais de voltarem em condições financeiras para buscá-lo, há anos que o contato com seus velhos tem ocorrido apenas pelo correio marítimo. Tenho pra mim que o sonho da ascensão através da emigração é ilusório, pois de nada adianta colocar seus pés molhados na cidade seca se o estigma da periferia é carregado em suas peles como se fosse uma doença contagiosa.

    ***

    – Que corrida rádio-espectadores, que corrida! Com a abertura da vigésima primeira volta, partimos para a metade final com Fantasma na liderança, seguido por Velvet, Princesa e Cavaaalo Horse após seguidos recordes de velocidade na sessão da praça das águas. Como domina esse labirinto o Cavalo, cooooomo domina!

    – Falou tudo Passarinha! – Ricky vem na rabeira com comentários adicionais – Horse domina os jatos de agilidade como poucos! E permita-me complementar: Simone Bule vem fazendo uma prova incrível, firme na quinta colocação. E não tiremos os olhos de Vin Álcool e Tia Vânia! Suas provas são costumeiramente muito tranquilas e consistentes, sempre se mantendo na zona de pontuação alta. Tia Vânia, inclusive, é a grande surpresa desse ano. Louros para a Titia!

    – Sua primeira corrida profissional foi com trinta e cinco anos, e com quarenta ela tá aí, disputando título. Olha, eu sou um grande fã da Titia. Direto das minas de areia para os canais de corrida principais… – Casarão se emociona em seu comentário balbuciado – Nem vou falar muito senão eu choro aqui, ao vivo, eu choro…

    – Ooooolha o que o Cavalo fez! – Passarinha interrompe transformando o clima emotivo em euforia – Ooooolha o que o Cavalo fez! É ou não é o rei dos jardins? Impressionante! Horse saiu da rota principal, aproveitou uma das fontes centrais como rampa e passou por ciiiima de Velvet e Princesa! – a narradora comprime sua face de tão larga que era a abertura da sua boca.

    – Cavalo Horse Pégasus? – comenta Rick marcando cada sílaba de maneira enfática – tem que trocar de nome! Ainda jorrou seu jato de água na cara dos competidores, que ficaram a-tor-do-ados!

    – É por isso que eu amo esse esporte! Que corrida!  – Casarão experimenta dois extremos da emoção humana em menos de cinco minutos – É emoção, coragem, velocidade, é o que eu sempre falo, não é só Jet Ski, não é!

    A configuração da corrida se mantém até as últimas voltas, com os pilotos da ponta ganhando cada vez mais vantagem sobre os outros três quartos de competidores, que pareciam disputar uma prova à parte. Vale observar que, mesmo com os esforços para manter o equilíbrio e a democratização do campeonato, as principais equipes ainda terão jets e pilotos superiores. Mas sempre aparecem algumas surpresas como Tia Vânia, que sem histórico ou equipe de ponta, se mantém no topo da tabela – e esse tipo de surpresa, meu amigo, você só vê na Copa dos Becos! Sim, me empolguei. Esta prova foi mesmo emocionante.

    Com a passagem das luzes quadriculadas, Horse enfim confirma sua vitória, e a disputa pelo título fica ainda mais embolada e dependente da última prova da temporada. Esse resultado inflama ainda mais o ímpeto do grupinho por dar o jeito que for para assistir, ao vivo e a cores neon, a prova final da Copa dos Becos. Compreendo completamente! Eu mesmo não perco essa prova por nada!